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Beatles – Revolver 60 ANOS
A mudança de ares de uma
era resumida em um disco
Antes
de abandonar os palcos, os Beatles começaram a experimentar em estúdio, guiados
por música erudita, pop norte-americano, aventuras técnicas e drogas
psicodélicas, continuando à frente de seu tempo com o fundamental Revolver Paul McCartney
incentivando os Beatles a fazerem pequenos trechos de sons superpostos,
inspirados em John Cage e Karlheinz Stockhausen. John Lennon querendo soar como
o Dalai Lama no alto do Himalaia ao cantar letras inspiradas na versão do Dr.
Timothy Leary para O Livro Tibetano dos Mortos. O dedo oriental de George
Harrison em uma canção sem mudanças de acordes. A bateria frouxa e hipnótica de
Ringo Starr, mais tarde ressuscitada por moderninhos como Beck (“New
Pollution”) e Chemical Brothers (“Setting Sun”). O produtor George Martin
obrigando funcionários dos estúdios Abbey Road a sincronizarem gravadores em
colagens aleatórias de som. O técnico Ken Townshend inventando os vocais ADT
(Artificial Double Tracking) e o engenheiro de som Geoff Emerick metendo a voz
de Lennon numa caixa Leslie dentro de um órgão Hammond. E isso tudo no primeiro
dia de gravação do sétimo disco dos Beatles, a quarta-feira dia 6 de abril de
1966, para uma única canção. A música se tornaria “Tomorrow Never Knows”, mas
ali, no início do álbum, o grupo assinalava a faixa como o começo de uma nova
fase, batizando-a sem modéstia de “Mark I”.
Fato
– afinal, um ano antes estavam gravando a popzinha “You’re Going to Lose that
Girl” e dois anos antes era a vez do rock “A Hard Day’s Night”. A distância era
muito grande. “Tomorrow Never Knows” era o início de uma era de experimentação
na música popular que iria explodir na renascença psicodélica do ano seguinte,
transformando o horizontes da cultura pop no caleidoscópio de referência que
conhecemos hoje. Com Revolver, os Beatles entravam numa escalada artística que
iria dar em obras-primas como Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o Álbum
Branco e Abbey Road, finalmente atingindo o topo do mundo pop. Até então, com o
jovem e moderno Rubber Soul, eram uma banda pop exercitando todo seu potencial.
De 1966 em diante, passariam a explorar as novas fronteiras da arte
contemporânea, mas sem perder o senso de perfeição que haviam mirado no álbum
anterior.
De
repente, descobriam as vantagens da manipulação sonora depois de gravada.
“Revolver estava sendo conhecido como o disco em que os Beatles diziam: ‘OK,
está ótimo, agora vamos inverter isto ou acelerar ou arrastar”, lembra Emerick
no livro The Complete Beatles Recording Sessions, “eles tentaram tudo de trás
pra frente, só pra ver como soava”. “Quando experimentamos o som de trás pra
frente, eles passaram a inverter tudo”, concorda George Martin em seu Summer of
Love – The Making of Sgt. Pepper. As inovações técnicas iam além da distorção,
aproximando a microfonação o máximo possível: microfones dentro de instrumentos
de sopro, grudados em violoncelos, colados na bateria. “Eles ouviam um monte de
discos americanos e ficavam perguntando: ‘Como podemos ter este som?’”, recorda
o produtor.
Mas
enquanto a técnica entusiasmava o lado juvenil de George, Geoff e Ken, o grupo
estava sendo ousado mesmo nas novas composições. As drogas exerciam um papel
fundamental na nova fase do grupo. “Dr. Robert” cantava sobre um médico pronto
para levantar o astral de quem quisesse, uma versão musical para Max Jacobson,
o farmacêutico-mor da marginália nova-iorquina; “Got to Get You Into My Life” é
sobre o entusiasmo de Paul McCartney com fumo (“é o meu primeiro arroubo sobre
maconha”, confessa Paul na autobiografia Many Years from Now); assim como a
preguiçosa “I’m Only Sleeping”, de Lennon; e as duas faixas que fechavam cada
um dos lados do vinil – “She Said She Said” e “Tomorrow Never Knows” – são
sobre viagens de ácido: a primeira disfarça um tour lisérgico que Lennon teve
com o ator Peter Fonda (vertido em “she” na faixa, para não dar na cara) e a
segunda escancara a exploração de realidades induzidas em versos nada discretos
(“Desligue sua mente”, “ouça as cores do seu sonho”).
Por outro lado, abriam continuavam entrando em portas musicais abertas nos discos anteriores. “Eleanor Rigby” é a evolução natural de “Yesterday”, com “cordas à Bernard Herrman”, como pediu Paul ao produtor Martin. “Taxman”, “Yellow Submarine” e “I’m Only Sleeping” brincavam com efeitos sonoros e arranjos superpostos. “Love You To” é George Harrison em sua primeira incursão de cabeça à cultura hindu que havia flertado em “Norwegian Wood”. “Here, There and Everywhere” e “For No One” – esta com solo barroco de trompa – transformavam Paul McCartney num jovem Schubert, compondo pequenas sinfonias em vez de baladas de amor. “Good Day Sunshine”, “Got to Get You Into My Life” e “I Want to Tell You” fazem a ponte com o pop norte-americana, enquanto “Dr. Robert” e “And Your Bird Can Sing” ajudavam a country music em sua própria evolução. Os assuntos abordados pelo disco iam da cobrança de impostos a contos infantis, passando por existencialismo, psicodelia, fossa amorosa, amor à vida, paixão latente, crítica social e metáforas diversas.
Poucos meses depois do lançamento do disco (no dia 5 de agosto de 1966), o grupo encerrou definitivamente a primeira fase de sua carreira, ao anunciar que não iria mais tocar ao vivo. A partir daí, o desafio do grupo seria sintetizar os anseios e dúvidas de uma geração – e assim fizeram ao serem os primeiros a darem o primeiro passo adiante, até seu fim, em 1970. Revolver encontra o grupo no exato momento da mudança, um sofisticado registro da melhor música pop de 1966 que flagra a mudança de parâmetros de toda uma era. “A mudança toda foi gradual”, conta John Lennon no livrão Anthology, “mas estávamos conscientes que, se havia uma fórmula ou algo do tipo, esta era mover-se para a frente”.
Revolver
1966
Produção: George Martin
A capa do disco já havia sido criada por Robert Freeman (uma colagem em espiral
das metades de cima dos rostos dos quatro Beatles repetidas vezes) quando o
grupo pediu ao velho amigo Klaus Voorman para recriá-la. Voorman, um dos ‘exis’
(grupo de jovens artistas existencialistas alemães no começo dos anos 60),
conheceu o conjunto na época em que eles tocavam em Hamburgo, antes de gravarem
o primeiro disco. A capa proposta por Klaus agradou em cheio: “Gostamos da
forma que ele nos colocava como pequenas coisas saindo do ouvido das pessoas. E
ele nos conhecia o suficiente para nos capturar de uma forma bonita em seus
desenhos”, lembra Paul, “nos sentimos elogiados”. Na colagem da capa, Voorman
usou duas fotos (uma de John e outra de George) que já haviam saído na
contracapa do disco anterior, Rubber Soul. – As faixas “Paperback Writer” e
“Rain” foram gravadas nas mesmas sessões de Revolver, mas serviram de aperitivo
ao público para o novo álbum, sendo lançadas como um compacto no primeiro
semestre de 1966 (em maio nos EUA e em junho na Inglaterra). “Rain” trazia a
primeira gravação invertida da história da música gravada à luz do dia. “Fomos
nós os primeiros”, resmungava John Lennon, “não foi nenhum Jimi Hendrix ou o
fuckin’ The Who”.
Por Alexandre Matias Revista Bizz, em 2001.
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